Prestes a receber a medalha João Baptista Bonnassis, advogado Renato Kadletz fala, em entrevista, de sua carreira no Direito e da vida dedicada à profissão

27/02/2019 - Geral

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A primeira sessão ordinária do Conselho Pleno da OAB/SC desta gestão apreciou e acolheu, por unanimidade, a entrega da medalha João Baptista Bonnassis ao advogado Renato Kadletz. A proposição do conselheiro estadual Wolmar Giusti foi aclamada em 15 de fevereiro. Na entrevista que segue, o homenageado conta sua trajetória profissional, relembra o início de sua atuação e aconselha os jovens advogados e advogadas em começo de carreira. Renato Kadletz também avalia a importância da Ordem como instituição e traz suas ideias sobre o futuro. "São devidas as homenagens e o reconhecimento a este decano da advocacia catarinense", disse o presidente Rafael HornConfira abaixo:

Sua história profissional sempre culminou na participação de assuntos e decisões importantes para a sociedade. O senhor atribui isso a sua participação efetiva nos temas liderados pela Ordem em Santa Catarina? Pela dedicação à profissão em seu escritório? Ou pela conciliação da sua atividade laboral com as demandas da OAB/SC ?

Tenho que todos somos o retrato daquilo que acreditamos.  Foi no convite feito em 1994 pelo então presidente Carioni que me foram abertas as portas da OAB/SC. Iniciei como conselheiro suplente eleito e naquele mandato acabei desempenhando também os honrosos cargos, tanto de secretário-adjunto como de tesoureiro. Essa proximidade com o debate de ideias e esse convívio diuturno com notáveis advogados catarinenses permitiu que eu pudesse aprender e crescer mas, acima de tudo, compartilhar os conceitos e valores em que acreditava. O protagonismo alcançado pela instituição naquela gestão com o pedido de impeachment do então governador Paulo Afonso, em razão do episódio das letras para quitação de precatórios inexistentes e que, por deliberação unânime do Conselho Pleno da Seccional, a condução do processo foi delegada a mim e ao saudoso advogado Eimard Pires. Foi a demonstração de que a OAB, acima e fora do controle do próprio Estado, pode se permitir a promover com a sociedade os grandes debates acerca das crises políticas, econômicas e sociais do país. Após afastado por uns tempos, integrei algumas comissões; a convite do presidente Adriano Zanotto presidi o Tribunal de Ética, no período 2004 a 2006 e logo após, fui novamente eleito, desta vez para presidir a Caixa de Assistência dos Advogados de Santa Catarina, no período de  2007 a 2009. Agora, por último, a convite do presidente Paulo Marcondes Brincas, retornei, eleito, para o cargo de conselheiro estadual suplente e depois titular, entre 2016 e 2018.

Que comparação o senhor faz entre a advocacia de quando começou e a de hoje?

Mudou e muito. Vejo isso na minha filha, Mariana, advogada, já veterana na sua inscrição 23.600 e que me ensinou até a fazer print. Mas mudou também pelo avanço democrático do exercício da cidadania. Além da centenária judicialização, hoje os esforços que os operadores de Direito compartilham estão na solução dos conflitos pela mediação e conciliação, até porque o advogado é o primeiro juiz da causa. Para mim, que convivi com o papel carbono, o corretivo de talco, as IBM de esferas, depois das velhas máquinas de escrever - sonho de todo o adolescente como o foi o computador para gerações mais recentes – é fascinante saber que já podemos peticionar através de um smartphone. Lembro, como menor aprendiz, quando iniciei meu labor no Cartório de Órfãos, Ausentes, Provedoria e Feitos da Fazenda da Comarca de Blumenau, dos advogados irem aos seus escaninhos, pegarem os seus processos e comunicarem ao serventuário que os estavam levando em carga, numa relação de confiança sem igual. Hoje, depois do bloqueio das cancelas, as distâncias físicas foram aumentando, e agora com o processo eletrônico digital cedo estaremos convivendo com robôs que peticionarão, de qualquer parte do país ou fora dele e, por que não, contaremos com decisões padrão uniformes, que obedecerão à mesma metodologia tecnológica? Só lamento pela duração da prestação jurisdicional, cada vez mais penosa, onde muitos não sobrevivem a hígida longevidade que se dá ao processo.

Dá para dizer objetivamente o que é ser um bom advogado?

Teria muitas definições, mas ressalto as de que tenha noção do seu papel institucional, na permanente busca de justiça social e reparação de lesão aos direitos do cidadão, seja ainda na intransigente defesa do Estado Democrático de Direito e que, acima de tudo, tenha conduta ética e moral que o dignifique perante o cliente, a sociedade e aos seus – todos merecedores de cidadania, dignidade e oportunidades.

Em breve o senhor será homenageado com a mais alta honraria da OAB catarinense. Como recebeu a notícia? Que advogados influenciaram sua formação?

Recebi com surpresa, honra e emoção, já que muitos são tanto ou mais merecedores da homenagem. Não posso deixar de registrar meu agradecimento ao presidente Rafael Horn, ao meu amigo, irmão e conselheiro relator Wolmar Giusti, e ao Conselho Pleno da Seccional, que recepcionou a proposição. Me uno, agora, com orgulho, a todos os detentores da comenda e que também deram sua parcela de contribuição  à advocacia catarinense, em especial à minha referência profissional, Solange Donner Pirajá Martins, advogada que também presidiu a CAASC, a quem devo muito da minha formação.

Com uma brilhante carreira jurídica e destacada atuação em prol da classe na Seccional catarinense, é possível seguir colaborando com a advocacia em nosso estado? Quais são os seus planos?

Os tempos são outros. A Ordem não tem dono e nem pode se permitir alimentar dinastias. Deve se reoxigenar permanentemente. Recomeçar e, por que não, repensar cada recomeço. A alternância qualifica o debate e o crescimento. E a OAB/SC vive isso na sua plenitude. Estarei sempre próximo, até porque ela hoje faz parte de mim – como fim e não como meio. Tenho, também, o compromisso de permanecer no exercício da advocacia, mesmo que, em razão da saúde debilitada, de forma menos intensa. Retornarei, ainda que de forma lúdica, para outras atividades, filantrópicas e filosóficas e iniciáticas que auxiliam no lapidar do meu saber, eterno aprendiz que sou, como o de dedicar o maior desse tempo, com certeza, no resgate da convivência junto aos meus.

Qual seria a sua mensagem para o jovem advogado e advogada? É possível resumir em um conselho para quem está no início da carreira?

O advogado tem uma missão importante. Dedicar-se ao próximo, defender a cidadania, a dignidade e a oportunidade que cada um merece. O advogado é no fundo um médico de almas. Só ele tem o remédio que ninguém mais tem para curar a maior dor que podemos carregar no corpo: a da injustiça, sentimento interior que mata. Hoje, mais do que nunca, precisamos de justiça social e correção das desigualdades sociais. E esse papel transpôs a litigiosidade dos tribunais. O exercício da advocacia hoje contempla também a mediação, a conciliação, a assessoria e a consultoria, estas duas importantes nos dias atuais, já que permitem garantir a segurança jurídica nas relações de conduta, sejam afetivas, de direito e interesses individuais ou coletivos, entre as pessoas físicas e as jurídicas, públicas e privadas, não necessariamente submetidas ao judiciário. No dizer da nossa conterrânea Sonia Bridi, após seu longo périplo pelo mundo afora, ‘somos todos iguais, mesmo que diferentes’.

Em relação à Ordem, como o senhor vê a união dos profissionais e a luta coletiva pelos interesses da classe?  Avalia que essa participação de todos é definitiva para o fortalecimento da Seccional?

A união dos advogados é fundamental para todos, sob pena de, pela soberba, individualismo e apego narcisista decretarmos o declínio dessa sagrada missão que nos foi outorgada pela sociedade. Tenho como sempre muito atual um velho adágio que só com uma OAB Forte teremos o Advogado Respeitado. De nada adiantam normativas de criminalização ou de garantia do exercício da profissão se não contarmos com uma instituição que seja protagonista na condução dos grandes debates político-econômicos e sociais do país. A OAB não precisa de logomarca. A OAB é som. Basta citá-la que todos sabem quem é e o que representa. Temos que fazer jus a essa grandeza. Ela, essa união, só será possível se de espírito desarmado e bom propósito praticarmos a grandeza de debate entre nós. Unidos, podemos compartilhar e contribuir para o aprimoramento das pessoas e das instituições. Tenho que o presidente Rafael Horn, voltado para esse valor maior, fortalecerá nossa OAB catarinense com a grandeza do debate das ideias que realimentam o nosso pleno viver como classe e como instituição.

Assessoria de Comunicação da OAB/SC

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    Sessão do Conselho Pleno da OAB/SC definiu a outorga da medalha à Kadletz em 15/02


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